Chegar a uma Série A não é, necessariamente, encontrar o investidor certo logo de cara e receber um cheque maior. Para Matheus Guinezi, cofundador e co-CEO da Uncover, o caminho até lá foi bem mais longo, e passou por diferentes rodadas, aprendizados e mudanças na própria empresa. Entre eles, a lição de que a captação deve acontecer para aproveitar uma oportunidade, e não uma condição para a sobrevivência do negócio.
“A Uncover realmente viveu uma grande trajetória de captação até chegar nesse momento. Foram seis anos e a natureza de cada uma das captações foi muito diferente e a gente foi evoluindo no caminho”, afirmou durante a palestra “O caminho da Série A no Brasil em 2026”, realizada nesta quarta-feira (26), durante o Startup Summit.
A startup levantou uma Série A de R$ 80 milhões recentemente para financiar a expansão internacional da empresa. A rodada foi liderada pela Cloud9 Capital, com participação de ABSeed Ventures e Endeavor.
Ao lado de Franco Zanette, partner da ABSeed Ventures e investidor da companhia, Matheus detalhou a trajetória da Uncover desde os primeiros aportes até a Série A. Segundo ele, a empresa passou por quatro captações: uma rodada-anjo (a empresa não possui registros públicos desta rodada), duas rodadas com venture capital e, mais recentemente, a Série A. Cada uma teve um objetivo diferente e acompanhou o estágio de maturidade do negócio.
A Uncover nasceu, segundo Matheus, da percepção de uma dor antes mesmo de seus fundadores decidirem empreender. Com experiência no mercado financeiro, ele se uniu ao irmão, Daniel Guinezi, que vinha do mercado publicitário, para atacar um problema relacionado à mensuração do retorno dos investimentos em marketing.
“A gente nem pensava em dinheiro e rodadas de investimentos”, disse Matheus. O objetivo inicial era desenvolver soluções para os primeiros clientes. A empresa passou a apostar em métodos analíticos para ajudar grandes companhias a entenderem, por exemplo, o retorno de investimentos em diferentes canais de marketing.
Da validação à escala
No começo, o desafio era provar que a tecnologia funcionava. Matheus contou que, além de demonstrar a existência da dor, a Uncover precisava validar uma metodologia diferente da que predominava no mercado. A companhia apostava em uma abordagem estatística para identificar a causalidade entre investimentos em marketing e vendas.
A primeira captação, portanto, esteve ligada à validação. Entre os primeiros investidores e mentores estava Marcelo Lacerda, que, ainda de acordo com Matheus, ajudou os fundadores a navegar pelo ecossistema de startups, além de contribuir com conhecimento e relacionamentos para a empresa conquistar seus primeiros casos.
Com o avanço da operação, o foco mudou. A empresa começou a provar valor com grandes clientes e chegou a gerar economias entre R$ 500 mil e R$ 1 milhão em projetos para empresas de capital aberto. A partir daí, as rodadas seguintes tiveram como objetivo estruturar a companhia, desenvolver playbooks e criar condições para iniciar uma trajetória de escala.
Hoje, conforme Matheus, a Uncover atende 70 grandes anunciantes no Brasil e já realiza projetos no México, nos Estados Unidos, na Inglaterra e no Canadá.
Para a nova etapa, a companhia levantou R$ 80 milhões em junho, em uma rodada liderada pela Cloud9, com participação de ABSeed Ventures e Endeavor. Mais do que financiar a operação atual, a captação está ligada ao próximo ciclo de crescimento da Uncover.
A empresa também pretende avançar em novas frentes, com foco em inteligência artificial, expansão internacional, novos produtos e canais de distribuição. “Tem muito ancorado em novos mercados e produtos que a gente pode evoluir”, disse. Entre as ambições está ocupar espaço em mercados internacionais e ampliar o relacionamento com veículos e plataformas de mídia.
Startup não pode depender de rodadas
Ao compartilhar seus aprendizados sobre captação, Matheus dividiu o processo em três frentes: motivação, negociação e processo. Para ele, uma das principais lições da trajetória da Uncover foi não vincular uma rodada à necessidade de sobrevivência da empresa.
“A captação precisa ser muito mais vinculada com uma oportunidade do que uma dependência”, destacou. Segundo o fundador, a obrigatoriedade de levantar recursos pode ser prejudicial, inclusive porque o processo exige uma dedicação intensa dos fundadores e pode afetar a própria operação do negócio.
Na prática, a captação deve servir para acelerar uma oportunidade, abrir novos mercados ou desenvolver novos produtos, e não para resolver um problema imediato de caixa, na visão do empreendedor. “Depender do dinheiro” torna a negociação menos saudável, disse Matheus.
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